Vocês sabiam que as epidemias da história também moldaram o mundo da arte? Artistas registraram, conscientizaram e também morreram com as tragédias. A morte e a doença se tornaram tema recorrente tanto na idade média quanto na arte moderna, segue o fio >
Antes de tudo, é importante lembrar que a arte é uma importante aliada na análise histórica. Funcionando como um espelho socio-cultural, a arte retrata de forma simbólica os medos, anseios e esperanças de diferentes sociedades no decorrer da nossa história
Antigamente a morte já era um tema recorrente na arte, mas foi na Grande Peste da Idade Média que ela ganhou uma atenção especial. Nessa época nasceu a alegoria da Dança Macabra, nela a morte demonstrava seu poder de conquista ao dançar com os vivos
Um poder de conquista tão poderoso e cego que não distinguia classe social ou idade. A dança também representava a igualdade entre as pessoas pois chegaria igualmente para todos. “Todos, inclusive as flores, devem servir ao Mestre” como dizia um poema da época
Seu poder era tão grande e temido que a morte também foi retratada como conquistadora e destruidora de impérios, trazendo dor e desgraça por onde passava (conceito também presente na primeira imagem da thread)
Tanto na peste quanto na gripe espanhola, a situação era tão pitoresca que muitas obras retratam o acumulo de corpos pelas ruas das cidades que acumulavam com a falta de coveiros, muitos cadáveres eram enterrados em valas comuns, sem direito à cerimônia nenhuma
Católicos pediam ajuda aos Santos em uma tentativa de se comunicar com o divino. São Sebastião foi o mais famoso na época, graças ao seu martírio e sobrevivência à uma morte inevitável por diversas flechas. Seu simbolismo remetia ao mito de Apolo e também às feridas bulbônicas
Os mais radicais acreditavam que a praga era um castigo de Deus e assim pediam misericórdia tentando simular o flagelo de Cristo. Os flageladores eram bem recebidos nas cidades e até ganhavam dinheiro dos moradores
O antissemitismo medieval europeu também fica claro nessa época, judeus eram queimados vivos por aqueles que os culpavam por trazer a peste à europa. A maioria dessas obras retratavam o caos social causado pela doença, não as condições físicas dos doentes
Por exemplo, as bactérias que dizimaram grande parte da Eurásia na metade do séc. XIV foram erroneamente associadas com as obras abaixo. Isso porque as imagens remetem aos gânglios inchados da peste bulbônica, mas na verdade eram representações de outras efermidades como a lepra.
Mais tarde, no surto da Gripe Espanhola de 1918, a arte perdia seu caráter documental graças ao advento da fotografia, mas continuava sendo um instrumento comunicativo poderoso que alertava sobre a chegada da pandemia ao mundo
Gustav Klimt, famoso pintor simbolista e reconhecido internacionalmente pela sua Era de Ouro, em que usava folhas de ouro em suas obras, morre em 1918 de pneumonia graças ao virus da Influenza. A Vida e a Morte de Klimt seguida pelo seu retrato adoecido feito por Schiele
Klimt foi mentor do pintor e desenhista erótico Egon Schiele, que também morreu da doença. Ele também perdeu a esposa grávida de 6 meses alguns dias antes. Aqui ele retrata o casal e seu filho que nunca nasceu. Ao lado um retrato de sua esposa adoecida
Edvard Munch, famoso impor expressionista, autor do icônico O Grito (do segundo tuíte) também sofreu com a doença, porém conseguiu se recuperar e pintou este auto-retrato após superar a doença
Mais recentemente, no surto de HIV que aconteceu no final dos anos 80, Hugh Steers também foi forte ao retratar a condição solitária de abandono familiar e social que os adoecidos se encontravam, em grande parte graças às políticas e mentiras espalhadas pelo preconceito
Aqui, o artista David Wojnarowicz retrata o sacrificio em massa de bufalos presente na cultura norte-americana como alegoria às políticas de abandono social e a morte de seus amigos e familiares pelo vírus
Porém, mais do que nunca, a arte cumpriu um papel importantíssimo na conscientização e solidariedade em relação ao vírus e suas vítimas
Hoje, ainda no início do surto da Covid, já vemos o exponencial crescimento de produções artísticas relacionadas ao tema, principalmente em relação à conscientização. Por isso é tão importante aprendermos com os erros do passado e acertos da ciência. A arte também é importante.
Atualmente a comunidade internacional de artistas tem se posicionado fortemente contra a covid. A arte urbana com seus grandes murais sempre democratizou o acesso à apreciação estética, porém agora se concentra em campanhas de conscientização de higiene e proteção contra o vírus
Vemos também a pesença das máscaras de protecão que se tornaram um símbolo de cuidado consigo e com o próximo, além do vírus em si que também teve sua silhueta eternizada no imaginário popular
Algumas outras artes urbanas também tentam conscientizar as pessoas a respeito do conceito geral da pandemia, tangendo políticas de estado, comportamentos pessoais e efeitos pulmonares, higiene...
Além disso tudo, a arte digital anda mais forte do que nunca, tanto com suas campanhas de conscientização e caos social quanto com suas críticas à política, economia e aos sistemas de saúde
Termino aqui questionando, qual o limite da arte? Ela tem limite? É desrespeitoso retratar a morte, a doença, a tragédia? Ou isso é importante pra história e conscientização? Ou ainda, seria ético a apropriação de itens de saúde em obras de arte? A arte tem que ser ética?
Dessa vez, além da movimentação orgânica da comunidade criativa, a ONU e a OMS estão ativamente convocando artistas e criativos pra produção de uma comunicação social mais completa em torno da conscientização: https://nacoesunidas.org/onu-convida-comunidade-criativa-a-enviar-pecas-sobre-o-coronavirus-saiba-como-participar/amp/
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